Aquisição sinaliza uma nova fase para o mercado de IAM, aproximando consultoria estratégica, governança de identidades, inteligência artificial e análise contínua de dados corporativos.
O mercado de Identity and Access Management (IAM) continua passando por uma transformação significativa. A crescente complexidade dos ambientes digitais, a proliferação de aplicações SaaS e a chegada dos agentes de inteligência artificial estão ampliando o papel da governança de identidades dentro das organizações.
Nesse cenário, a aquisição da Zluri pela Infotech, anunciada em outubro de 2026, representa mais do que uma operação de expansão de portfólio. O movimento sinaliza uma aproximação entre dois mercados historicamente distintos: a consultoria estratégica de tecnologia e as plataformas operacionais de Identity Governance and Administration (IGA).
A operação também levanta uma questão importante: estamos caminhando para um modelo em que empresas de consultoria não apenas recomendam soluções de governança, mas também fornecem as plataformas responsáveis por executá-las?
Quem são as empresas envolvidas?
A Infotech, conhecida por sua atuação em pesquisa, consultoria e aconselhamento para líderes de tecnologia, construiu sua presença no mercado apoiando organizações em decisões estratégicas, avaliação de fornecedores, gestão de tecnologia e transformação digital.
A Zluri, fundada em 2020, surgiu inicialmente como uma plataforma de SaaS Management, voltada à descoberta, ao gerenciamento e à otimização de aplicações SaaS utilizadas pelas organizações.
Com o amadurecimento de seu portfólio, a empresa expandiu suas capacidades para Identity Governance, automação de processos de acesso e segurança de identidades.
Essa evolução tornou a Zluri particularmente interessante em um momento no qual as organizações procuram consolidar informações sobre aplicações, usuários, permissões e riscos.
O valor financeiro da aquisição não foi divulgado publicamente.
Muito além do gerenciamento de aplicações SaaS
Tradicionalmente, as plataformas de SaaS Management concentram suas funcionalidades na identificação de aplicações utilizadas pelas empresas, no gerenciamento de licenças e na otimização de despesas.
Entretanto, descobrir uma aplicação é apenas o primeiro passo.
Uma organização também precisa compreender quem utiliza essa aplicação, quais permissões foram concedidas, quem aprovou os acessos e se esses privilégios continuam necessários.
É justamente nessa interseção que a Zluri ampliou sua proposta de valor.
Entre as capacidades oferecidas pela plataforma estão:
- SaaS Discovery: identificação de aplicações utilizadas no ambiente corporativo, incluindo potenciais situações de Shadow IT.
- Identity Governance: visibilidade sobre identidades, acessos e permissões.
- Access Reviews: apoio à revisão periódica de privilégios e à certificação de acessos.
- Lifecycle Management: automação de processos associados à entrada, movimentação e saída de colaboradores.
- SaaS Spend Management: identificação de oportunidades de otimização de licenças e despesas.
- Identity Security: ampliação da visibilidade sobre riscos associados às identidades digitais.
A combinação dessas funcionalidades aproxima a plataforma de um dos maiores desafios das organizações: estabelecer governança sobre aplicações que não estão completamente integradas às soluções tradicionais de IAM.
CIO Analytics: a estratégia por trás da aquisição
Um dos aspectos mais relevantes da operação está relacionado à estratégia da Infotech para sua plataforma CIO Analytics.
A proposta combina informações operacionais, benchmarks, análises orientadas por inteligência artificial e serviços de consultoria.
Em vez de depender exclusivamente de avaliações pontuais, entrevistas e questionários, a consultoria passa a ter a possibilidade de trabalhar com dados provenientes diretamente dos ambientes tecnológicos de seus clientes.
Imagine uma organização que deseja compreender sua exposição a riscos relacionados à identidade.
Em um modelo tradicional, uma consultoria pode realizar entrevistas, analisar processos, examinar evidências e produzir um relatório com recomendações.
Em um modelo orientado por dados operacionais, parte dessas informações pode ser coletada continuamente, permitindo identificar aplicações desconhecidas, permissões excessivas, contas sem utilização e oportunidades de melhoria.
Essa abordagem abre espaço para uma evolução importante: a transição de avaliações periódicas para uma governança orientada por evidências contínuas.
Isso não significa que o trabalho especializado desapareça. Pelo contrário, interpretar os dados, avaliar riscos e definir prioridades continuam sendo atividades que exigem conhecimento técnico e compreensão do contexto de negócio.
O impacto para o mercado de Identity Governance
A aquisição reforça uma tendência que já vinha ganhando força: Identity Governance está deixando de ser uma disciplina isolada de segurança e conformidade.
Durante muitos anos, projetos de IGA foram associados principalmente à automação do ciclo de vida de usuários, à certificação de acessos, ao controle de privilégios e ao atendimento de requisitos regulatórios.
Essas necessidades continuam fundamentais, mas já não representam todo o universo de governança.
As organizações precisam conectar identidade a outras dimensões da operação tecnológica, como gestão de aplicações, segurança, custos, produtividade e inteligência artificial.
Isso cria oportunidades para plataformas capazes de correlacionar informações provenientes de diferentes sistemas.
Para fornecedores estabelecidos, como SailPoint, Saviynt e Okta, o movimento representa mais um sinal da expansão do mercado de governança, embora não signifique necessariamente que a Zluri ofereça a mesma profundidade funcional em todos os cenários.
A competição tende a envolver não apenas recursos tradicionais de IGA, mas também capacidade de descoberta, facilidade de integração, automação e geração de informações úteis para decisões de negócio.
Disconnected Applications: um desafio que permanece
Um dos pontos mais interessantes dessa movimentação é sua relação com as chamadas Disconnected Applications.
Apesar dos avanços nas plataformas de IAM, muitas organizações ainda possuem aplicações sem conectores nativos, interfaces de provisionamento ou mecanismos adequados de integração.
Em alguns casos, o gerenciamento de acessos depende de planilhas, solicitações manuais ou procedimentos executados diretamente por administradores.
Esse cenário dificulta a implementação de processos consistentes de Joiner, Mover e Leaver (JML), revisões de acesso e controles de segregação de funções.
A descoberta automatizada dessas aplicações representa um avanço, mas não resolve todo o problema.
Identificar uma aplicação não significa conseguir governá-la.
Para estabelecer governança efetiva, é necessário compreender suas contas, permissões, responsáveis, processos de aprovação e mecanismos de concessão ou revogação de acesso.
Essa distinção é particularmente importante porque revela que ainda existe espaço para soluções especializadas em integrar e governar aplicações que permanecem fora do alcance das ferramentas tradicionais.
A próxima fronteira: identidades não humanas e agentes de IA
Outro elemento relevante é a expansão da governança para identidades não humanas, conhecidas como Non-Human Identities (NHI).
Contas de serviço, identidades de aplicações, integrações automatizadas e agentes de inteligência artificial já fazem parte dos ambientes corporativos.
Com a adoção crescente de agentes capazes de executar tarefas e interagir com sistemas empresariais, surgem novos desafios.
Quem é responsável por um agente de IA? Quais aplicações ele pode acessar? Como suas permissões são concedidas? Quem aprova alterações em seus privilégios? Como identificar comportamentos incompatíveis com sua finalidade?
Essas perguntas demonstram que os princípios tradicionais de IAM continuam necessários, mas precisam ser adaptados a novos modelos de execução e autonomia.
A evolução da Zluri em direção à segurança de identidades não humanas e agentes de IA está alinhada com essa transformação.
No entanto, a maturidade das capacidades de governança de agentes ainda precisa ser avaliada considerando aspectos como autorização contextual, rastreabilidade, gestão de credenciais, ciclo de vida e aplicação do princípio do menor privilégio.
Consultoria e software: uma combinação poderosa, mas que exige transparência
A aquisição também provoca uma discussão sobre o papel das empresas de consultoria no ecossistema tecnológico.
Uma consultoria independente tradicionalmente ajuda seus clientes a avaliar alternativas, selecionar fornecedores e definir estratégias de implementação.
Quando essa mesma organização passa a possuir uma plataforma tecnológica, surge uma nova dinâmica.
Por um lado, a combinação pode acelerar a execução de recomendações, melhorar a qualidade das análises e permitir o acompanhamento contínuo de indicadores.
Por outro, pode levantar questionamentos sobre a independência das recomendações apresentadas aos clientes.
Como garantir que uma avaliação de mercado continue imparcial quando a organização responsável pela análise também comercializa uma solução concorrente?
A resposta passa por transparência, critérios objetivos de avaliação e separação clara entre atividades de aconselhamento e interesses comerciais.
Esse será um aspecto importante a observar na evolução da estratégia da Infotech.
O futuro do IAM será cada vez mais orientado por dados
A aquisição da Zluri revela uma mudança mais ampla na maneira como as organizações podem consumir tecnologia e serviços especializados.
O modelo tradicional, no qual consultorias produzem recomendações e fornecedores implementam ferramentas separadamente, tende a conviver com abordagens mais integradas.
Nesse novo cenário, plataformas de governança poderão alimentar continuamente mecanismos analíticos capazes de identificar riscos, recomendar ações e acompanhar sua execução.
A inteligência artificial pode acelerar esse processo, especialmente na análise de grandes volumes de identidades, permissões, eventos e relacionamentos entre sistemas.
Entretanto, a automação não elimina a necessidade de governança.
Recomendações produzidas por inteligência artificial precisam ser explicáveis, auditáveis e compatíveis com políticas de segurança e requisitos regulatórios.
A decisão de revogar um acesso, alterar um privilégio ou bloquear uma identidade pode produzir impactos operacionais relevantes. Por isso, controles de aprovação, análise de risco e supervisão humana continuam essenciais.
Conclusão
A aquisição da Zluri pela Infotech é um movimento estratégico que merece atenção do mercado de Identity and Access Management.
Mais do que incorporar uma plataforma de SaaS Management e Identity Governance, a operação representa uma tentativa de aproximar inteligência estratégica e execução tecnológica.
A combinação de consultoria, descoberta de aplicações, governança de identidades e análise de dados pode contribuir para um modelo de gestão mais contínuo e orientado por evidências.
Ao mesmo tempo, a operação evidencia desafios que permanecem em aberto, especialmente na governança de aplicações desconectadas, identidades não humanas e agentes de inteligência artificial.
O mercado de IAM está evoluindo de uma abordagem centrada em usuários e aplicações para um ecossistema mais amplo, no qual identidades, permissões, automações e decisões precisam ser continuamente monitoradas.
A grande transformação não será apenas descobrir quem possui acesso a quê, mas compreender por que esse acesso existe, quais riscos representa e como governá-lo continuamente.
Fontes e referências
- Infotech — Comunicado sobre a aquisição da Zluri e a expansão da plataforma CIO Analytics.
- Zluri — Informações institucionais sobre SaaS Management, Identity Governance e Identity Security.
- Carter Lusher — Infotech Acquires Zluri: An Analyst Perspective, Substack.

